"Sabes, quem nao acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da agua, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silencio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o ceu e interrogámos o seu sentido. nisto eu acredito: na vemencia destas coisas sem principio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos."
domingo, 27 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
No Teu Deserto
"A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio."
O silêncio

"Acredito que a verdade reside muito mais vezes no silêncio do que nas palavras, por mais belas e justas que sejam, mesmo quando voam do coração dos poetas para o coração do papel e ficam ali a dormir, à espera que alguém as apanhe.Sou de poucas conversas e prefiro falar do mundo com ironia do que dissertar sobre o que me forra a alma, porque quem me conhece consegue ler nela tudo o que precisa e além disso, sem palavras nunca há equívocos. Tenho mãos e olhos e tempo para aqueles que amo e quando se ama alguém é como se nos nascesse um néon na testa, maior e mais brilhante do que o do "Bellagio" em Las Vegas, uma luz serena, quase divina, que nenhum curto-circuito consegue apagar.
My love is wider, wider than Victoria Lake, my love is taller, taller that the Empire State. A musa que canta por mim enquanto guias silenciosamente a caminho do sul. Esperam-nos praias na falésia, vodcas tónicos ao cair da tarde, noites claras e manhãs preguiçosas, a tua pele encostada à minha, a respiração profunda e regular do teu corpo adormecido e o cheiro salgado da tua pele quando te estenderes ao meu lado na areia, longe do mundo, perto de mim. Tens uma docilidade igual à minha, genética, quase inconsciente, que te corre no sangue e que tentas esconder de ti própria. Às vezes consegues, és como eu, sabes disfarçar a dor, a tristeza, a solidão, a ausência, o medo e o desencanto e quando não consegues, vais-te embora e lambes as feridas em segredo até estares curada.
O amor ao silêncio vem-me da infância, quando brincava anos a fio com o Ferry, um dos seres mais notáveis e superiores que conheci. Era um pastor alemão de olhar vivo e bom porte que corria como um leão e brincava comigo com uma criança. Sabia sempre qual era o seu lugar e usava o seu charme canino para conquistar os humanos com grande talento e muita discrição. O Ferry era o meu cão, o meu irmão mais novo, o meu melhor companheiro e mais fiel amigo. E nunca precisámos de conversar. Às vezes, muito poucas, eu dizia-lhe duas ou três coisas que me preocupavam e ele respondia-me com um olhar ou um suspiro e eu percebia o que ele me queria dizer; que o mundo poder ser um lugar difícil, mas, se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E que o importante é não complicar, ter tempo para descansar e brincar, seja qual for a nossa idade ou profissão. O Ferry ensinou-me a amar o silêncio e a respeitar o silêncio dos outros. Mas também me ensinou a atacar de forma letal os meus inimigos, a ser grato a quem me quer bem e a lamber as feridas longe dos outros. Morreu envenenado e deixou um vazio na minha vida.
Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida. E é por isso que quando escondes a cabeça abaixo do meu ombro direito e dizes em voz muito baixa temperada com riso e embaraço que se calhar te estás a apaixonar por mim, fico calado para que me oiças melhor e penso que sou uma pessoa cheia de sorte. O Ferry tinha razão; a vida nem sempre é fácil e o mundo pode ser um lugar vil e torpe onde há homens que têm prazer em mutilar crianças e envenenar cães, mas se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E tu já fazes parte da minha vida."
segunda-feira, 7 de março de 2011
letter to a friend
Dei por mim a vaguear por entre as memórias do passado, do nosso passado. O dia em que nos conhecemos, o dia em que nos tornámos amigas, o dia em que percebemos que nunca falhávamos uma a outra quando todo o mundo nos parecia falhar a nós.. Lembro-me de um desenho, lembro-me de te ver a correr para mim todas as manhãs, lembro-me de te abraçar com força e de me chamares melhor amiga. Lembro-me do constante vibrar do telemóvel com mensagens tuas, e das chamadas tardias. Também habitam na minha memória os jantares na minha casa ou na tua, as tardes e noites de verão, o acordar contigo a tocar à campainha porque adormeci, ou quando entravas a chorar à procura de um porto seguro. Recordo-me das nossas brincadeiras e de contarmos tudo uma à outra. De dizeres que ias fazer uma tatuagem com a inicial do meu nome, de fazermos planos de como seria a nossa vida daqui a dez e vinte anos, de contarmos sempre uma com a outra acima de tudo. Lado a lado com todas estas memórias estão centenas de fotografias. Fotografias..Não há nada mais falso do que uma fotografia, li algures. E não podia estar mais de acordo. As fotografias mostram imagens imobilizadas de um certo segundo capturado para a eternidade. Mostram a verdade daquele mesmo segundo, e nada mais. Hoje, ao olhar para uma fotografia, vejo duas meninas a rir ingenuamente do mundo que as rodeia, o que levaria qualquer pessoa a pensar que tudo continua assim. Mas não. As fotografias são mentirosas. As pessoas mudam, avançam, evoluem, as fotografias não. Expõem, eternamente, menos de um simples segundo de uma vida.
Mas por isso mesmo é que continuo a guardá-las, as fotografias. Recordam-me de como fomos felizes, dando como prova todos aqueles segundos gravados no tempo. E de certo modo ajudam-me a manter a minha sanidade mental, assim sei que a minha memória não me está a pregar partidas e que tudo aquilo aconteceu mesmo.
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