Meu amor

Já não consigo contar pelos dedos todas as vezes que te fechei a porta na cara. Todas as vezes em que, por este ou aquele motivo, peguei em todas as nossas memórias e promessas e as meti para trás das costas. Não penses que foi fácil fazê-lo, nem por uma vez. E apesar da aparente frieza com que te neguei uma simples conversa, e me recusei a ouvir quaisquer que fossem as palavras que tinhas para me oferecer, por dentro tinha o coração apertado, ferido. Conheço-te demasiado bem e há demasiado tempo para saber com plena certeza que nunca foi tua intenção magoares-me, isso eu sei. É engraçado, de certo modo, que as razões pelas quais virámos costas tantas vezes, nunca foram verdadeiramente razões. Nunca houve traições, nunca houve enganos, mentiras ou qualquer outro tipo de motivo deste género. Não. As nossas razões são sempre outras, coisas pequenas, insignificantes mas que por algum motivo ganham para nós uma dimensão transcendente. Uma palavra dita no momento errado, uma atitude mal interpretada, uma sensação de insegurança.. E é o suficiente para se fecharem as portas na cara um do outro. Mas as portas nunca ficam fechadas por muito tempo, e no tempo em que ficam, não deixamos de ficar encostados à porta, cada um do seu lado. Tal e qual confraternização inimiga num campo de guerra. E então, de portas fechadas, cada um recorre aos meios que pode e sabe usar para conseguir chegar ao outro lado. Primeiro ouvem-se muitos não's, muitos gritos, cada um a tentar impôr o seu ponto de vista, depois muitas recusas, negam-se conversas, não se responde a mensagens, rejeita-se chamadas, e tudo isso para levar o outro a um estado de desespero e loucura, que de certo modo se sente como uma pequena vingança. E por fim, quando se sente que já se chegou ao limite e já se esgotaram as armas, e acima de tudo, as saudades começam a apertar, os trincos destrancam-se e as portas abrem. Pelo menos connosco é assim, sempre foi assim. No fim do dia temos sempre a porta aberta um para o outro, mesmo que o dia tenha sido de guerra e lutas. O amor fala sempre mais alto, e sussurra-nos ao ouvido o quanto é bom termos os braços um do outro para nos abrigarmos do mundo. Para os outros pode ser estranho e até incompreensível, este constante bater de portas, mas para nós faz sentido. Partimos mas regressamos sempre, e tão rapidamente que quase não temos tempo de sentir saudades. O nosso amor é assim, um furacão, avassalador, tanto que por vezes nos leva no meio um pouco perdidos. Mas regressemos sempre a nós. Como poderíamos não regressar? A isto que é tão bom, que construímos com tanto amor e paixão, e que nos abriga do mundo que lá fora dá voltas e voltas imprevisíveis. Todos os dias, pedrinha a pedrinha, construímos o nosso castelo, resistente a furacões, a balas, a terramotos e a tudo o mais que seja preciso, e com muitas portas para que as continuemos a bater e a abrir, todas as vezes que forem precisas, o importante é que no fim estamos juntos. E se quisermos deitar a casa a baixo ou pegar-lhe fogo também podemos fazê-lo, porque no fim continuamos a ter o nosso amor e uma cabana.
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