quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Foi numa manhã quente de Verão. Passava pouco do meio-dia e eu ainda me encontrava na cama, curiosamente a ver um programa na televisão que envolvia um funeral. A casa estava agitada, eles corriam de um lado para o outro a fazer as malas para uma viagem que estava planeada há já muito tempo. Eu como sempre deixei tudo para a última. No meio de toda essa agitação e barulho ouvi um telefone a tocar. Atenderam-no; e de repente o silêncio instalou-se de forma pesada em todas as divisões da casa. "Ela morreu??", gritaram de junto do telefone. Eu não entendi o que isso queria dizer. De repente tudo começou a acontecer em câmara lenta. Um choro frenético e profundo substituiu o silêncio, e a agitação voltou. Mas era uma agitação diferente da anterior. Os gritos que me entravam violentamente pela porta do quarto "Tenho de ir vê-la, despachem-se temos de ir!! Eu não acredito, eles enganaram-se, não é ela de certeza!", assustaram-me. Não soube o que sentir. As lágrimas escorriam-me pelo rosto, sem piedade, o meu corpo tremia. Mas o que tinha acontecido? Num segundo estava tudo bem, e no exacto segundo a seguir uma tragédia tinha acontecido. Tudo aquilo parecia irreal, uma cena tirada de um filme macabro qualquer. Saímos de casa em direcção ao hospital e tudo o resto que se seguiu continua a ser um filme que vejo e revejo na minha cabeça. Como se a um estranho pertencesse. Ainda hoje, essas imagens me assaltam e me roubam o sono. As pessoas vestidas de preto, o som do choro e do soluçar que todos partilhavam como se de uma orquestra se tratasse, as histórias que contavam sobre ti, já tantas vezes contadas, mas agora usando os pretéritos. "Ela era, ela dizia, ela fazia". As senhoras remexiam na tua roupa tentando chegar a um acordo sobre o que tu quererias levar vestido pela última vez. Discutiam sobre as flores, sobre as cinzas, sobre o cemitério. E o choro nunca parava. As pessoas abraçavam-me a mim a chorar, e falavam de ti e de como tu gostavas de mim. Primeiro era a família, depois amigos da família, vizinhos, e pessoas que eu nunca vira. Nesse dia eu não chorei. Sentia-me bloqueada, como se todas as minhas emoções tivessem sido desligadas. Passeie pela tua casa, sentei-me na tua cama, revi as tuas fotografias. Estava tudo na mesma. O quarto, a sala, a cozinha. A casa onde passei toda a minha infância, onde praticamente vivi contigo durante os três primeiros anos da minha vida, a casa onde te visitava todos os fins-de-semana..estava tudo igual. Só faltavas lá tu. As bolachas que me oferecias continuavam no jarro, o teu sofá continuava na posição onde o deixavas, e o teu lugar continuava no canto da mesa da cozinha. As tuas flores, os teus santos, os teus perfumes, o teu rádio.. estava tudo no lugar onde os deixaste. Não existiam mudanças, nada estava fora de sítio, era como se tivesses apenas saído para ir ao mercado e voltarias em breve. Por isso como era suposto eu sentir a tua morte se nada tinha mudado? Como era possível eu sentir que nunca mais te ia ver, se não tinhas levado nada contigo.. A carta que eu te escrevera, à uns anos atrás, a dizer-te o quanto gostava de ti e te admirava, continuou guardada no meio das tuas coisas. Esse dia aconteceu há pouco mais de um mês. Mas sabes ainda hoje me custa acreditar em tudo isto. Continua a parecer tão irreal como no dia em que o telefone tocou a anunciar que tinhas partido. Continuo a saber de cor a tua voz, o cheiro do teu perfume, e o toque macio e enrugado da tua pele. Continuo a saber de cor a tua cara, e os teus gestos. E todos os fins-de-semana quando entro no carro é a tua morada que me vem à cabeça. E quando passo à porta da tua casa, espero sempre que me abras a porta e eu me possa agarrar a ti aos beijos. Para mim aquela casa vai ser sempre a tua casa, e tu vais estar sempre lá à minha espera. José Saramago tinha a razão do seu lado quando afirmou que a morte é a diferença entre estar e deixar de estar. É só mesmo isso que é. Tu partiste, mas ficou tudo na mesma. A casa, a rua, as fotografias.. A única diferença é o vazio que se instala. É uma coisa violenta e profunda o vazio que uma pessoa deixa quando morre, não por fora, mas por dentro. Dentro das pessoas que a amam e que ela amou, fica um vazio que nada substitui, um vazio em que pesam todas as palavras que não foram ditas, todas os abraços que não se deram, todos os momentos que não se chegaram a viver. É um peso avassalador. Por muitas vezes que te tenha dito o quanto gostava de ti, não sei se foram suficientes. Todos os carinhos que te dei, não sei se bastaram para demonstrar o quanto te admirava. Todas as vezes que não te visitei, ou que tive pressa para ir embora, doem agora como nunca. Porque dava tudo por mais um minuto contigo, para te poder dizer que te amo, que te admiro, que eras a melhor do mundo e que morro de saudades tuas. Não sei onde estarás agora, não sei sequer se estarás, porque não sei no que acredito. Mas sei no que acreditavas, e se for como tu achavas que era, então estás bem aí e estás a ver-nos a nós que cá em baixo tanto precisamos de ti. Espalhei fotografias tuas pelo meu quarto, porque tenho medo de me esquecer da tua cara um dia. A morte se serve para alguma coisa, é para nos ensinar a dar mais valor às pessoas de quem gostamos enquanto elas ainda estão vivas; não deixando nenhuma palavra por dizer. E eu aprendi isso contigo. Às vezes ainda acordo durante a noite com o grito que anunciou a tua morte "Ela morreu??", e oiço-o como se tivesse sido ontem, com a mesma clareza e nitidez. E ainda não parece verdade, avó.
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